Teobaldo
Vou
lhe contar uma história que se passou com meu velho pai quando
morávamos lá na
chacrinha do rincão, bem no interiorzão mesmo, nem energia elétrica
tinha lá. Mas o pai tinha um rádio a pilha que ele havia ganho de
herança do meu bisavô. O “zumbido”, como apelidaram o tal
rádio, era meio ultrapassado, mas até que dava pra escutar as
notícias. Para o pai era sagrado escutar o radinho todo o dia e
tinha que ter silêncio. A gurizada já sabia, não podia nem
cochichar naquela hora do noticiário. O velho era pura concentração
com ouvido colado no “zumbido”. Mas velho mesmo era o radinho de
pilha que, já muito batido, começou a afinar a voz dos locutores. O
pai começou a achar aquilo esquisito, pensou até que estava na
rádio trocada, mas não podia ser, porque o dial
não se movia mais,. E tudo isso começou depois de num dia em que
ele deu um soco no rádio porque o time dele tinha levado um gol. Daí
pra frente ele prometeu que só ia escutar jogo de costas pro
“zumbido”. Promessa em vão.
Bom, mas a voz foi afinando e ele não
estava gostando nada daquilo, resolveu então tentar arrumar o
radinho por conta própria. Procurou umas chaves de fenda, alicate,
uns fiozinhos, um martelo – Isso pode ser preciso (pensou). E se
atracou. Só para abrir o “zumbido” acho que levou umas duas
horas, não tinha ferramenta pro tipo de parafuso do rádio. Já todo
molhado de suor abriu um sorrisão quando avistou a placa de circuito
impresso do “zumbido”. Era o céu, parecia que aquilo era coisa
do outro mundo. Sua esposa até perguntou pra ele se estava tudo bem
mas ele nem deu bola, só acenou com a cabeça afirmando que estava
tudo sob controle. Mas e agora, por onde começar? O que é isso? O
que é aquilo? Será que dá choque? Bem, mas ele era metido e em
outra oportunidade já tinha até arrumado uma a bomba manual de
encher a caixa dágua que estava vazando. Encorajou-se e afastou bem
a tampa pra bisbilhotar o “zumbido”. Olha daqui, olha dali e
achou ele que estava tudo normal. - Mas não pode! Tem que ter alguma
coisa errada! (esbravejou). Já estava quase escurecendo e ele ali,
não almoçou, nem café, nem chimarrão, nada. Só no “zumbido”.
Ninguém chegava perto, já sabia que ia levar um chingão.
Foi daí que ele criou coragem e ligou
o rádio aberto mesmo pra ver se conseguia identificar o afinamento
das vozes. Quando ele apertou o botão de ligar notou que lá atrás
da placa alguma coisa se mexeu. Arregalou o olhão, o coração
disparou, largou o rádio na mesa rápido. - O que que é isso? Tem
alguma coisa dentro do rádio! Vou ter que ignorar com ele e pegou o
martelo. - É agora! Quando ia bater, parece que alguma coisa segurou
sua mão, era mais forte que ele, uma força sobrenatural. Desistiu
de bater no rádio, pegou sua chave de fenda e afrouxando os
parafusos conseguiu afastar a placa de circuito impresso da parte da
frente do rádio e então o inesperado se revelou. Deu uma gargalhada
tão grande que a mãe veio correndo ver se ele estava bem. - Mas
olha só mulher o que estava acontecendo com o “zumbido”: Essa
aranha fez uma teia na frente do alto-falante e não deixava o som
passar, mas que bichinho atoa. Partiu então para a etapa final, após
a remoção do aracnídeo: fechar o radinho. Mais três horas depois,
pois tinha perdido uns parafusos conseguiu montar o radinho a tempo
de escutar o noticiário.
Essas coisas só com o ele mesmo.
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