sexta-feira, 19 de julho de 2013

O Zumbido afinou a voz

Teobaldo

Vou lhe contar uma história que se passou com meu velho pai quando morávamos lá na chacrinha do rincão, bem no interiorzão mesmo, nem energia elétrica tinha lá. Mas o pai tinha um rádio a pilha que ele havia ganho de herança do meu bisavô. O “zumbido”, como apelidaram o tal rádio, era meio ultrapassado, mas até que dava pra escutar as notícias. Para o pai era sagrado escutar o radinho todo o dia e tinha que ter silêncio. A gurizada já sabia, não podia nem cochichar naquela hora do noticiário. O velho era pura concentração com ouvido colado no “zumbido”. Mas velho mesmo era o radinho de pilha que, já muito batido, começou a afinar a voz dos locutores. O pai começou a achar aquilo esquisito, pensou até que estava na rádio trocada, mas não podia ser, porque o dial não se movia mais,. E tudo isso começou depois de num dia em que ele deu um soco no rádio porque o time dele tinha levado um gol. Daí pra frente ele prometeu que só ia escutar jogo de costas pro “zumbido”. Promessa em vão.
Bom, mas a voz foi afinando e ele não estava gostando nada daquilo, resolveu então tentar arrumar o radinho por conta própria. Procurou umas chaves de fenda, alicate, uns fiozinhos, um martelo – Isso pode ser preciso (pensou). E se atracou. Só para abrir o “zumbido” acho que levou umas duas horas, não tinha ferramenta pro tipo de parafuso do rádio. Já todo molhado de suor abriu um sorrisão quando avistou a placa de circuito impresso do “zumbido”. Era o céu, parecia que aquilo era coisa do outro mundo. Sua esposa até perguntou pra ele se estava tudo bem mas ele nem deu bola, só acenou com a cabeça afirmando que estava tudo sob controle. Mas e agora, por onde começar? O que é isso? O que é aquilo? Será que dá choque? Bem, mas ele era metido e em outra oportunidade já tinha até arrumado uma a bomba manual de encher a caixa dágua que estava vazando. Encorajou-se e afastou bem a tampa pra bisbilhotar o “zumbido”. Olha daqui, olha dali e achou ele que estava tudo normal. - Mas não pode! Tem que ter alguma coisa errada! (esbravejou). Já estava quase escurecendo e ele ali, não almoçou, nem café, nem chimarrão, nada. Só no “zumbido”. Ninguém chegava perto, já sabia que ia levar um chingão.
Foi daí que ele criou coragem e ligou o rádio aberto mesmo pra ver se conseguia identificar o afinamento das vozes. Quando ele apertou o botão de ligar notou que lá atrás da placa alguma coisa se mexeu. Arregalou o olhão, o coração disparou, largou o rádio na mesa rápido. - O que que é isso? Tem alguma coisa dentro do rádio! Vou ter que ignorar com ele e pegou o martelo. - É agora! Quando ia bater, parece que alguma coisa segurou sua mão, era mais forte que ele, uma força sobrenatural. Desistiu de bater no rádio, pegou sua chave de fenda e afrouxando os parafusos conseguiu afastar a placa de circuito impresso da parte da frente do rádio e então o inesperado se revelou. Deu uma gargalhada tão grande que a mãe veio correndo ver se ele estava bem. - Mas olha só mulher o que estava acontecendo com o “zumbido”: Essa aranha fez uma teia na frente do alto-falante e não deixava o som passar, mas que bichinho atoa. Partiu então para a etapa final, após a remoção do aracnídeo: fechar o radinho. Mais três horas depois, pois tinha perdido uns parafusos conseguiu montar o radinho a tempo de escutar o noticiário.

Essas coisas só com o ele mesmo. 

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